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Gonçalo
Pereira
As células do Bem e do Mal
Antigamente a genética tratava da aparência: um
sujeito que quisesse produzir um melhor rebanho, por exemplo,
escolhia a melhor vaca e o melhor touro, cruzava os dois e esperava
o resultado. Só que muitas vezes o melhor pai e a melhor
mãe não produzem um filho campeão. Pode até
ocorrer o oposto. Esse é o maior avanço que vivemos
hoje nesse campo: com a genética molecular, a incerteza
vai acabar. Hoje é possível identificar genes para
determinadas características, copiá-las ou modificá-las
se necessário. Para ter um conhecimento completo dos genes
humanos, está sendo desenvolvido o projeto Genoma, espécie
de mapa rodoviário de todas as nossas células. Isso
nos levará a uma maior prevenção contra doenças.
Esse avanço, contudo, traz um debate ético. Empresas
podem se ver tentadas a encomendar testes genéticos de
seus candidatos a emprego. Ao detectar sua propensão para
desenvolver algum tipo de doença, podem optar por excluir
um ou outro profissional.
Um dos mais dramáticos dilemas que envolvem o conhecimento
genético é o da síndrome de Coréia
de Huntington, doença neurodegenerativa que não
apresenta sintomas e só se manifesta no indivíduo
depois dos 30 anos de idade. É rara, sem tratamento e transmitida
geneticamente. Como dizer ao portador que ele morrerá cedo?
Por outro lado, como não dizer e deixar que tenha filhos
também portadores do mesmo mal? Para curar doenças
e evitar esses dilemas, teremos a terapia gênica. Ainda
caríssima, ela permitirá substituir o gene defeituoso
ou causador de doença por outro saudável. É
preciso atingir as células certas, mas ainda não
se sabe direito como. O cientista coloca os genes novos num transportador,
que pode ser um vírus. Atualmente são desenvolvidos
vírus causadores de doenças em determinados tecidos
ou órgãos, com esse fim. O vírus se encarrega
de levar o gene corretor para dentro do organismo. Somente quando
esse tipo de técnica for mesmo efetiva, poderemos falar
em um homem geneticamente quase perfeito.
Porém,
para que serviria uma raça perfeita de seres humanos, quando
a imperfeição é, ela própria, uma
das características mais fascinantes da nossa espécie?
Trecho
da Revista Veja do dia 10 de junho de 1998. Gonçalo Pereira
é coordenador do laboratório de genética
molecular de leveduras da Unicamp.
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